segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Passo

                                                                                                   Google imagens



Passo...por ruas, calçadas e avenidas, a passos largos fugindo da solidão, passo pela multidão que nunca para, por pessoas que nunca vi, refaço o caminho de outros, e sempre passo despercebido.

Passo... de uma faixa para outra, de uma cadeira para outra, de uma fila para outra, passo o cheque, passo o troco, recebo o que me é justo, repasso o que é de meu engano, passo frio em uma noite em que as horas não passam.

Passo...tudo aquilo que já não me é útil, todo sofrimento passado, toda alegria que passa,todas as sensações que um dia nos passam, ficando a impressão que ainda falta muito a passar.

Passo... a bola para outro, a roupa recém saída do varal, passo as idéias por onde passo, as incertezas que me provocam, a insegurança que por mim sempre passa, passando a achar que tudo isto nunca vai passar.

Passo... o dedo no bolo, a mão sobre a cabeça, preso em meus pés descalços passo por poças de lama, buracos, atrás apenas de um passo, um passo de mágica que me remeta ao mundo que sonhei, um sonho que em mim nunca passa.

Passo... o cadeado no portão, a carta por baixo da porta, a confissão de mão em mão, passo nas trilhas da vida com caderno na mão, lápis na orelha e olhar no horizonte, passo rasante sobre o que me incomoda, passo feliz com quem me acomoda.

Passo...o Natal em família, o réveillon com amigos, passo calado pra não chamar atenção, passo de fininho, passo atordoado, se for carnaval não passo pela multidão, se é são João passo no túnel embalado pelo baião.

Passo... pela fome nos sinais, pela miséria nas nossas calçadas, passo pela impunidade em nossos palácios, passo por risos de covardia, passo por choro de felicidade, passo... mesmo que triste, passo.

Passo...a informação que chega a todo instante, os pensamentos que tive ontem, passo a mão sobre a caneta em que escrevo o que passo, sem passos, apenas no compasso da melodia que guia meus passos.

Passo... pela imensurável dor de ser apenas um, passo pelo mundo de contradições que nunca passam, da violência que nunca para, do conformismo dos que apenas passam.

Passo, até não alcançar mais meus passos...e os que passam por mim, que não se percam em seus próprios passos.

"Do Heroico ao ridículo não há mais do que um passo"
Simon Bolívar


Grande Abraço.
Bons Ventos!

Zélio Marulo Jr.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Carta para Deus - Parte II

  

Mais um dia Senhor Deus,
Sentado aqui neste chão frio e sujo, olhando as pessoas passarem por mim
e fingindo não me ver, tenho dores nas costas, meus pés estão cheios de calos,sem amigos, sem família, sofro muito com este ABANDONO.

O Senhor já deve ter me visto pelos sinais, pedindo esmolas, correndo riscos,Sendo humilhado por qualquer centavo que seja, para não morrer de FOME.

Durante o dia também me aventuro nos ônibus da cidade, em meio a caras feias,frases de preconceito, mendigo uma ajuda, qualquer que seja, para me tirar da RUA.

Não tenho casa há muito tempo, aliás, nem lembro se tive casa um dia, se tive um pai,uma mãe, irmãos, primos, é difícil viver isolado, encostado pelos cantos, sem ter uma FAMÍLIA.

Às vezes meu Deus, me vejo em crianças maiores que eu, que vendem chicletes, balas, jujubas e amendoins nos sinais e também nos ônibus, fico me perguntando se este será meu futuro, se este será  o fardo que terei que carregar para o resto da minha, uma vida cheia de MISÉRIA.

Também Senhor, sinto muito medo de envelhecer e ser como o Seu Francisco, o mendigo da praça, um homem que não teve chances de ser alguém, que não teve escolha, se não, a de mendigar, um homem marcado pela dor da vida, marcado pelo sofrimento de nunca ter tido um lar, um homem que passou a vida sem viver, um olhar cheio de lágrimas, é um sofrimento Senhor que machuca meu CORAÇÃO.

Perambulando por estas praças Senhor, vejo a vida passar, passar por mim pessoas que nem conheço, pessoas que nem me notam, crianças...crianças como eu, que jogam comida fora, que têm brinquedos, roupas, sapatos, pai,mãe... e me pergunto por quê? POR QUE eu meu Pai?

A vida que agora passa por mim, nem sei se é vida, não tenho chance e nem escolha, não tenho vontade e nem forças, não tenho dia e nem noite, não sinto amor e nem ódio, não tenho medo e nem culpa, não tenho piedade e nem perdão, não tenho vocação e nem predestinação, não sou um homem e nem BANDIDO.

Sou apenas um MENINO, e gostaria só de um remédio Senhor, que parasse a minha dor, que passasse a minha fome, a minha vontade de chorar, porque sinceramente meu Deus... eu já não agüento mais.

"Educai as crianças e não será preciso punir os Homens."
Pitágoras


Zélio Marulo Jr.

Grande abraço
Bons Ventos!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Por Enquanto, é tudo.


Bem, por mais que ainda diga, por mais que ainda tente, por mais que ainda queira... Nada mudou, nem está perto de mudar.

Por quanto tempo teremos que provar, mais, e novamente que o justo que poucos pregam, seja tão injusto que nem forças temos para lutar?

Quanto terei eu que provar dessa injustiça? Quanto ainda me falta sofrer da dor da impunidade para que a lei seja vista, aliás, revista?

Será que é impossível ver que a cada dia sofremos mais, lamentamos mais, choramos mais, morremos demais... Sentados, inertes, certos ou não nos escondemos atrás do comodismo, do pessimismo, enquanto a vontade de justiça se esvai junto com os sonhos, junto com alegria, e assim nos tornamos presas fáceis da corrupção, da injustiça e do abandono.

Assim somos por sermos distantes, distantes de nós mesmos, de nossos vizinhos, do que acontece no mundo e vivemos do que acontece ao redor do “nosso próprio mundo”, também somos diferentes, e muito mais indiferentes. E as indiferenças aparecem justamente quando mais precisamos de nós, quando precisamos ser mais juntos do que isolados.  Há falta de apoio as tentativas de protesto, há falta de humanidade nas tentativas de ajuda, há falta de interesse nas tentativas de corrigir os erros, há falta de caráter nos nossos governantes, há falta de vontade em ser feliz.

E então senhores (as)? Por quanto tempo?  Por quanto tempo ainda teremos que bater nas mesmas teclas? Por quanto tempo seremos infelizes, calados, covardes? É esta a herança que deixaremos para nossos filhos? Impunidade, corrupção, violência, preconceito, miséria, fome, injustiça? Por quanto tempo viveremos e veremos tantos brasileiros *sem eira, nem beira?

Por quanto tempo serei prisioneiro em minha própria casa? Por quanto tempo terei que me esconder de balas perdidas? Por quanto tempo terei de me sentir inferior?Por quanto tempo terei o peso do mundo em minhas costas? Por quanto tempo terei que me defender da justiça, dos bandidos e da polícia?
Por quanto tempo?? Por quanto...?? Por...??...?? ...FIM.

Façamos algo, antes que nossa esperança padeça sob a sombra da impunidade e a covardia da sociedade.


”Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final.
Elisa Lucinda

*Significa pessoas sem bens, sem posses. Eira é um terreno de terra batida ou cimento onde grãos ficam ao ar livre para secar. Beira é a beirada da eira. Quando uma eira não tem beira, o vento leva os grãos e o proprietário fica sem nada. Na região nordeste este ditado tem o mesmo significado mas outra explicação. Dizem que antigamente as casas das pessoas ricas tinham um telhado triplo: a eira, a beira e a tribeira como era chamada a parte mais alta do telhado. As pessoas mais pobres não tinham condições de fazer este telhado , então construíam somente a tribeira ficando assim "sem eira nem beira"  Fonte: Mulher Virtual


Um Grande Abraço.
Bons Ventos!!

Zélio Marulo Jr.
 
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